quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Uma história, dois pontos de vista (|Português)

Autores: Mayara Martan e Marcelo Apablaza


Acordo em minha casa e o que vejo? Amanda ainda dormindo, o que significa que eu ganhei, novamente, o prêmio de “faça o café da manhã”, por ter acordado primeiro. Já sei o que devem estar pensando, não é assim que deveria acontecer. Não é o formato normal dos contos de fadas, nem das aventuras dos caçadores ou dos temidos piratas.. já imaginou se o Zorro tivesse que acordar e esquentar a água para o café? Bom, tampouco nos contos a amada, não prepara nada, princesas não fazem isso.
Me pego no meio do quarto pensando: “quem deveria estar preparando o café então?” Empregada doméstica? A mais feia e experiente, nos padrões da patroa. A mais simpática e jovem nos meus. Mas não sou muito a favor de ter alguém estranho dentro de casa, porque me agrada passear pela casa com minha cueca box...
Mas vamos ao banho para despertar de verdade e em seguida à cozinha. Toalhas que viviam no chão, na vida de solteiro, aprenderam rapidamente o seu lugar. Por que as calcinhas não fizeram o mesmo curso? Insistem em ficar penduradas no registro do chuveiro. Enfim, banhado e desperto, vou chegando até a cozinha. Devo confessar, adoro cozinhar, e Amanda sabe disso. O odor do café recém passado e das torradas prontas vão despertar ela, com seu lindo rosto amassado e um olhar que deixaria até James Bond em retaguarda. Depois da segunda xícara de café é possível conversar com ela.
Agora se esta cena acontece naqueles dias em que o dialogo é apenas monossilábico... é melhor nem tentar iniciar o diálogo. Simplesmente espere ela ditar as regras e, mentalmente anote as atividades recomendadas, respondendo “sim amor”, “Certo linda, deixa comigo!” e nada de pensar ou discutir ao mesmo tempo a posição que os nossos times ocupam na tabela do Brasileirão. Nesse exato momento entramos nas coisas bizarras e absurdas de se falar que nem eu entendo. Se unir a alguém torcedor de um time diferente do seu é porque, certamente, você gosta de viver perigosamente. Tem dias que a gente pede para que o flamengo dela ganhe e o tempo seja de “nuvens brancas” em casa... bom humor, ela fica um doce. Melhora até o sexo. Agora quando o meu grêmio perde, o que é raro, ela dança até em cima da mesa. Uma dança estranha... Pode lembrar aquelas das tribos africanas antes de comer a vítima.
Hoje de manhã comentei sobre a empregada e o café da manhã, e ela com o seu melhor ânimo e humor disse-me: para que, si o seu é tão bom?
Ao voltar ao banheiro para terminar de me arrumar, e sem respeitar meu espaço, ela entra e passa a mão no meu traseiro dizendo: lembra que dia é hoje? Putz, comecei a tremer inteiro. Que data filha da mãe eu esqueci agora? Qual a histórica comemoração que irá acontecer hoje a noite e que me fará pensar o dia inteiro, e ir de última hora ao centro comercial próximo ao trabalho para comprar uma lembrança? Usando meu melhor senso de humor e fazendo de conta que está tudo sob controle, muito bem pensado e medido, a respondo: sexta, amor...6 de novembro, por quê?
Eis que rapidamente ela ataca dizendo-me: ahhh porque hoje é o seu dia de levar o lixo, não se esqueça...
Voltando o filme...
De outro ponto de vista....
Hum, tenho trabalhado tanto ultimamente... me sinto cansada, mas amanhã ainda é sexta! Pelo menos não serei a dona do lixo e sim ele. Ai! Que sonho maravilhoso, lojas com muitas bolsas, vendedores, chocolates, massas, e eu nem engordo. Bem, neste sono estou mais bonita, na verdade estou gostosa! Ai nem quero acordar, que delícia. Café! Com certeza um café, e por sinal, em uma xícara de porcelana, reconheço de longe. Um cheirinho de café é tao bom... Café! Droga, perdi o horário. Lucas está fazendo o café da manhã. Que bom, porque odeio a idéia machista de que somente nós é que temos que acordar antes dos homens e deixar tudo pronto.
É melhor assim, que não me acorde quando ainda percebe que estou dormindo. Odeio ser acordada, principalmente porque ontem trabalhei até tarde em meus múltiplos trabalhos. Afinal a mulher tem doze vezes mais coisas para fazer que o homem. E faz sem reclamar a não ser que alguém faça alguma piadinha...sei ser tão irônia as vezes. Na verdade eu gosto de acordar sozinha, entende? Eu gosto de ter o meu tempo em silêncio, para assimilar tudo. Isso com calma e não respondendo perguntas idiotas do tipo “já acordou?”... Minha vontade era responder “não, você sabe, sou sonâmbula, só estou dando uma volta, mas logo vou para cama... Ou “dormiu demais é amor?”. Por mais fofo que possa parecer, é idiota. Não, não dormi. Fingi que estava dormindo só pra ver o que você ia fazer.
Hum, nada melhor que espreguiçar-me. Me dirijo ao banheiro e claro, a primeia coisa que vejo é o box aberto e o chão molhado, porque meu excelentíssimo marido certamente não sabe que banho se toma com o box fechado. Aliás, creio que o box deveria vir de fábrica com uma faixa de atenção dizendo “Chuveiro ligado, box fechado!”. Por enquano tenho que ir explicando ao meu querido marido que esforços repetitivos com o rodo me deixam com a coluna dolorida... se é que ele se importa com isso. Entro no banho e vejo que minha calcinha não está mais alí. Com certeza o meu dignissimo marido viu que estava seca e a colocou no monte de roupas que eu terei que passar quando voltar do trabalho. Claro porque a toalha que ele esqueceu anteontem no chão, eu fiz questão de deixar no chão! Isso para ele perceber que a toalha só fica seca e limpa se estiver estendida. Quando ele, ao chegar do trabalho, viu a toalha no chão e meio úmida, com aquele cheiro de cachorro molhado, e que seria com ela que ele teria que se secar, resolveu começar a estendê-la... Eu sei esinar também!
De roupão penso em como seria ótimo chegar em casa e ver tudo limpo e pronto. Teria que ser uma “secretária do lar” (agora não chamam mais empregadas domésticas...) decente, não muito joven, porque essas realmente não sabem trabalhar bem. Não precisa ser, necessariamente, bonita, mas apresentável. De preferência casada, porque não há nada no mundo mais chamativo que uma empregada, se é que me entendem. Principalmente quando se conhece o marido que se tem...conheço meu eleitorado. E sabendo que o Lucas gosta de andar con suas cuecas box pela casa de manhã...não seria muito auspicioso. Ao menos nessa hora ele deve se sentir o “Rei Leão” da casa... ha ha ha Creio quea sensação de liberdade o inspira... pelo menos a fazer o café da manhã, o que é ótimo. Esse cheiro de café está mexendo com minha imaginação. Me faz lembrar meu sonho, que estava bom, porém o pavor de acordar e lembrar que ainda é sexta-feira.
Chego na cozinha e tomo minhas duas xicaras de café, hoje com lete desnatado, porque me deu vontade. Lucas ia me dizer algo, mas eu o fitei com de um eito tão profundamente “comunicativo” que ele recuou. Quando estou naqueles dias que em que a cor vermelha é tão presente na vida de uma mulher, o que significa TPM, o diálgo é na verdade um monólogo: eu digo o que há para fazer, se não falar o silêncio deve perpetuar, até que EU o quebre... Porque os homens nunca entendem que uma mulher com TPM fica frágil e impaciente ao mesmo tempo??? Hormônios femininos são tão fortes em suas funções que nos deixam completamente intolerantes a tudo. E quando eu digo tudo...é tudo mesmo! Prefiro dizer e espero que ele anote guarde tudo mentalmente sem perguntar “como”, “onde”, “quanto”, “quando”, “o que” e muito menos “por que”. Aliás...homens não deveriam perguntar “Por que”... nunca. Menstruamos uma vez por mês...e nesses dias os homens não nos entendem...quer dizer, eles nunca nos entendem, mas nesse período, aí é que eles não entendem mesmo. Um exemplo foi esses dias atrás, que eu estava com fome e queria comer algo diferente. Lucas virou pra mim e disse “que tal irmos àquela pizzaria que você adora?”. Seria ótimo, se eu não estivesse com TPM e se eu não tivesse dito pra ele que queria ALGO DIFERENTEEEEEEEEE! Desisti de sair com ele, liguei pra minha amiga, que por sinal, também estava endiabrada... Fomos até o shiopping e tomamos sorvete. Uma gigantesca taça de sorvete de laka com cobertura de morango, flocos de arroz, morangos e tubinhos de chocolate. Lógico que isso depois de comermos um shawarma com muito molho de alho. Só as mulheres se entendem. E o Lucas? O Lucas foi comer a pizza dele...
Bom, após tomar minhas xícaras de café, Lucas me perguntou sobre a empregada. Não tenho certeza, mas estou chegando a conclusão que ele realmente está preocupado comigo, porque insite na idéia de contratar uma. Eu até concordei, mas deixei bem claro que o café da manhã dela eu descartei.
Ele foi terminar de arrumar-se enquanto eu lavava a louça do café pensando: “será que ele esqueceu que hoje é o dia dele levar o lixo para fora?”. Mesmo porque ele viu que ontem eu estava cansada e não pediu sequer se eu queria ajuda para limpar a casa. Pelo sim, pelo não, vou recordá-lo. Fui até o banheiro, o qual deixei seco e com o box fechado, e ironicamente perguntei sobre o dia de hoje. É incrível como eles ficam pálidos quando fazemos esse tipo de pergunta. Suam frio, a respiração fica ofegante. Eles siplesmente dão aquele sorriso amarelo e dizem sempre a mesma coisa: falam o dia da semana e a data. Contudo, tem sim, um motivo de comemoração, pois se completam duas semanas do meu novo emprego. Além dos atendimentos diários, comecei a escrever uma coluna em um diário sobre a minha especialidade. No dia em que entrei, que era para comemorarmos, faltou comunicação: não tive tempo de avisar ele antes dele combinar com os amigos para uma janta. Sempre que não tenho plantão vou junto, mas aquele dia eu não teria plantão e queria comemorar somente com ele. Enfim, fomos ao jantar deixamos nossa comemoração para sexta-feira, dia 6, ou seja, hoje.

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