A sexta história: gatos e cachorros
O comportamento dos gatos e dos cachorros também nos remete à vida. A nossa vida, cheia de fantasmas, como lemos em Clarice Lispector. Estou aprendendo com Clarice, mas continuo seguindo os conselhos do cachorro.
Hoje li Clarice. Acho que todas as pessoas deveriam – uma vez na vida – ler Clarice. Em sua “Quinta História”, ela abordou seus fantasmas internos. Abro a “Sexta” para falar dos meus...
Veja só como são os gatos: bichanos que ao menor sinal de perigo se escondem. Sobem em lugares bem altos ou embaixo do sofá. Quando querem alguma coisa vem manhosos e amáveis, “esfregando-se” e “arrepiando-se”, como se realmente tivessem amos pelas pessoas que o cercam. Já foram heróis de guerra. São cultuados em alguns países, mas, mesmo com todo o amor que podem receber, continuam com seu instinto e crueldade intrínsecos.
Enquanto são afagados não fecham os olhos. Confiam, mas nem tanto. Se por algum motivo querem sair do colo carinhoso, não hesitam em mostrar suas unhas afiadas e arranhar, e até machucar quem o esteja segurando. Nem olham para trás. Saem como se nada tivesse acontecido. O engraçado é que mesmo feridas, essas pessoas não diminuem o carinho pelo bichano. “Ui”, “calma!” o máximo que conseguem dizer, embora sempre que aquele pequeno ferimento – perto do carinho que existe para com o gatinho – se mostre dolorido, retomará toda a cena.
Meu Deus, como existem gatos ao meu redor. É tudo que vejo. Todos os tipos de gatos: malvados, traiçoeiros, ariscos, falsos... Não gosto de gatos.
Disseram-me, então, para procurar ajuda. Procurei um cachorro. Ah, sim, cachorros são compreensivos, carinhosos, sabem escutar, de alguma forma nos aconselham com seu olhar. Mas quando se chega ao ponto de procurar um cachorro para se afastar dos gatos é porque não se tem outra fonte onde buscar ajuda. Às vezes, os amáveis cãezinhos não conseguem nos ajudar completamente. Nesse momento ainda estou recorrendo ao cachorro. Eles estão me mostrando algumas coisas que eu não quero exteriorizar. Um com seu olhar dependente. O outro com tarefinhas que devo fazer em casa e mostrá-la toda terça, à tarde.
Quem sabe um dia eu consiga afastar os gato. Talvez não. Ao mesmo tempo em que quero, não quero. Quando decidir, não precisarei de um dos cachorros, mas manterei contato. O outro, será meu grande e fiel amigo. Até que a morte nos separe...
Hoje li Clarice. E nela vi que os fantasmas não nos deixam por todo o tempo. Deixarei os peixes de ontem fora da geladeira, e os colocarei sempre no quintal. Não é receita como a de Clarice, nem mesmo são baratas, que vem pelos canos sem convite. São aqueles que trazemos para nossa vida por livre e espontânea vontade. Os que nos ferem após receberem o nosso carinho, a sua ração diária, sua água fresca... Li Clarice. Mas continuo aceitando os conselhos do cachorro.
Mayara Martan
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